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Síria pós-ataque americano: qual caminho seguir?

Mísseis Tomahawk brilham no breu do céu mediterrâneo.

Por Anselmo Heidrich

Dois dias atrás 73 pessoas foram mortas província síria de Idlib, controlada pelos rebeldes, 23 das quais crianças. Os EUA responsabilizaram o governo de Bashar al-Assad de ter provocado o ataque, enquanto este acusou os rebeldes de tê-lo feito.

Até alguns anos atrás Donald Trump condenava o envolvimento americano nesta guerra que já dura seis anos. Ontem ele reconheceu que sua posição sobre o assunto mudou muitas vezes e o que aconteceu era inaceitável. Ontem, o @POTUS (President Of The United States) mostrou que tem culhões e não é uma marionete de Vladimir Putin como acidamente descrevem alguns de seus críticos. Mas crer que possa ir muito além disso é temerário.

Lançar mísseis contra um aliado russo, mais de 70 não é pouca coisa. Em 2012, Barack Obama ameaçou Assad sobre a utilização de armamento químico, que se fizesse tal uso “estaria ultrapassando uma linha vermelha”. Pois bem, em 2013, Assad dizimou quase 1.500 pessoas em um dos subúrbios de Damasco e ficou por isso mesmo. Aliás, disto tudo resultou em um acordo Washington-Moscou em que, praticamente, os EUA passam a batata quente (com seus ônus e bônus embutidos) para a Rússia. E esta provou que o cão não estava tão preso assim na coleira, ou seja, Moscou não tinha Assad tão bem controlado assim. Aliás, é uma ingenuidade pensarmos que alianças subentendem hierarquias rígidas, como se a superpotência tivesse fiscais em cada repartição dos organismos de defesa de seus aliados menores. Não funciona assim.

Antes de Donald Trump vencer, eu já criticava os entusiastas liberais sobre sua retórica antibelicista. Nada é tão simples assim quando se trata de geopolítica e o que vimos foi a realidade regional do Oriente Médio se sobrepor às bravatas isolacionistas de uma campanha presidencial. Agora a questão é o que vai ser? Num cenário mais fantasioso, uma nova guerra fria surgiria, mas isso não é mais viável, pois não se trata de apenas duas superpotências em um globo com nações-satélites ávidas por benefícios. Além do mais, o déficit público americano e as claras limitações econômicas da Rússia mostram um quadro mais fragilizado. Isto sem levar em conta que a China seria um terceiro agente a tirar proveito (e crescer) com a disputa entre Moscou e Washington. Então esqueça isto.

Outra possibilidade mais provável é uma ação direta americana, em solo sírio, mas que levaria o país mais ao fundo do poço com seu enorme déficit público. Justamente no caminho oposto da campanha presidencial de Trump. Portanto resta uma ação indireta e cirúrgica, como a que se viu ontem. Mas para ir além, não poderá se descartar a parceria com a Rússia. Enfraquecer Assad ao ponto de Moscou tomar as rédeas da situação, mas sem tirar o representante do poder local, isto é, o próprio Assad. Contraditório? Claro que não! Se ele sai, quem entra? O Estado Islâmico (ISIS)? A al Qaeda através de vários grupos aliados? Entendam uma coisa, em geopolítica não existe vácuo de poder. Se não for a Rússia através de Assad será a al Qaeda com apoio de grupos sunitas que não querem sujar as mãos, mas são inimigos do Irã que apoia xiitas no país. E para complicar um pouco mais a situação, podem apostar que a Turquia é uma potência regional, membro da OTAN que não irá permitir um Irã forte muito próximo de suas fronteiras, mas deixemos isto para outro artigo...

O fato é que por mais cruel que sejam imagens de adultos e crianças morrendo por sufocamento com gás Sarin, esta indignação ocorreu devido às imagens (como o vídeo abaixo) que percorreram o mundo. Em 2013 foi muito pior e não houve a mesma reação. Talvez porque, como diz o ditado, “o que os olhos não veem o coração não sente”. Mas o fato é que muitos olhos não querem ver o que já está ocorrendo há mais de meia década. E antes disso e antes ainda numa sequência de interferências, intervenções e opressão.

A crueldade em uma guerra é uma moeda de troca e, infelizmente não irá parar agora porque uma base militar foi atacada numa demonstração midiática para aquecer o Twitter. Trump precisava responder, mas convenhamos, isto é um novo episódio para quem já era o rei do reality show. Acreditar que uma guerra civil com tantas facções e aliados externos e sua consequente perda territorial não possam levar à explosão de depósitos de armas químicas por lançamentos de bombas é que é uma baita ingenuidade. Pense... Nem quando invadiram o Iraque em 2003 dominando por completo seu território se encontraram as alegadas armas químicas por George W. Bush, quanto mais agora em um país segmentado territorialmente em uma guerra que fagocita seu próprio povo.

Talvez haja uma luz no fim do túnel e mais do que a democracia, que não irá florescer em sociedades divididas por seitas e etnias é a integração comercial. O comércio externo não cria irmãos, não cria comunidades harmônicas, mas incentiva codependências que desestimulam conflitos. Para isto ocorrer naquela região, infraestrutura precisa ser criada e esta dificilmente será feita por governos corruptos que existem devido à miséria alheia. Quem faz isto nestes casos são impérios. Captou?

(Continua...)

* Cuidado ao assistir este vídeo:

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Sobre o Autor

Anselmo Heidrich

Mestre em Geografia Humana pela USP. Professor de Geografia há mais de 25 anos, pesquisador em geografia e geopolítica. Ex-Membro do Movimento Brasil Livre em Santa Catarina e do Movimento Resistência Liberal Brasil. Co-autor do livro Não Culpe o Capitalismo - http://naoculpeocapitalismo.blogspot.com.br/.